Entrevista:O Estado inteligente

sábado, janeiro 19, 2008

A luta de Sérgio Vieira de Mello em favor da paz

O homem que quis
consertar o mundo

Uma biografia reconstitui a admirável trajetória do
diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, encarnação
dos melhores ideais humanitários da ONU


Jerônimo Teixeira

No seu primeiro dia em Gorazde – sitiada pelas tropas sérvias em 1994, em um dos episódios mais dramáticos da Guerra da Bósnia –, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que chefiara o comboio de ajuda humanitária da ONU até a cidade, fez questão de se apresentar impecável em seu terno bem cortado. Seus assessores aproveitaram para debochar de sua aparente vaidade. "Se nos mostrarmos na melhor aparência, vamos lembrar as pessoas aqui da dignidade que elas costumavam ter", retrucou Vieira de Mello. E ele logo deu a primeira instrução: era preciso circular pela cidade, para mostrar a bandeira azul da ONU à população civil que havia dias estava sob bombardeio constante. Em todas as zonas de conflito em que atuou em seus 34 anos de carreira na ONU – em lugares como Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano, Ruanda, Kosovo e Timor Leste –, Vieira de Mello mostrava a mesma preocupação com a dignidade das vítimas da guerra, do desterro, da fome. VEJA teve acesso a uma prova editorial de Chasing the Flame – Sérgio Vieira de Mello and the Fight to Save the World (No Rastro da Chama – Sérgio Vieira de Mello e a Luta para Salvar o Mundo), biografia que será lançada no próximo mês nos Estados Unidos (e que ainda neste ano deve ser publicada no Brasil pela Companhia das Letras). Na obra, o diplomata brasileiro é retratado como uma encarnação dos melhores ideais humanitários que inspiraram a fundação da ONU depois da II Guerra Mundial. Mas a jornalista americana Samantha Power também mostra como Vieira de Mello – que morreu em uma missão no Iraque, no atentado a bomba contra a sede da ONU em Bagdá promovido pela Al Qaeda em 2003 – foi uma figura emblemática das limitações da ONU. Sua trajetória revela a relativa impotência da organização diante das grandes catástrofes humanas da história recente.

Luke Frazza/AFP
Com Bush na Casa Branca, em 2003: mesmo fazendo cobranças duras, ele encantou o presidente americano

Nascido em 1948, o carioca Sérgio Vieira de Mello era filho de um diplomata, Arnaldo, que foi compulsoriamente aposentado pela ditadura militar em 1969. Sérgio costumava invocar a humilhação imposta ao pai pelo governo brasileiro quando lhe perguntavam por que nunca se alistou no Itamaraty. Recém-formado em filosofia pela Universidade Sorbonne, em Paris, encontrou trabalho no Alto Comissariado para Refugiados da ONU no mesmo ano em que seu pai deixava a diplomacia. Vieira de Mello participara dos protestos estudantis de Paris, em 1968, e a princípio levou as mesmas idéias para seu trabalho em Bangladesh e no Sudão. Sofreu um choque de realidade em 1982, ao lado das forças de paz no Líbano – a invasão do país por Israel, em desacordo com resoluções da ONU, foi uma amarga decepção para o ainda ingênuo Vieira de Mello, que a partir de então se tornou mais pragmático. Sua carreira não foi isenta de equívocos, como mostra Samantha Power. Durante a Guerra da Bósnia, o brasileiro se mostrou excessivamente cioso da política de neutralidade da ONU e negligenciou a natureza desigual do conflito. Deixou de condenar os crimes de guerra sérvios com a firmeza necessária – chegou até a andar pelas lojas de Belgrado em busca de um presente para Slobodan Milosevic, o ditador da Sérvia. O próprio Vieira de Mello revisaria essas posturas. No seu retorno aos Bálcãs, em 1999, durante uma nova investida expansionista da Sérvia – desta vez sobre a província do Kosovo –, ele se mostrou bem menos condescendente e até aprovou o bombardeio da Otan às posições sérvias. Na sua atuação durante a independência do Timor Leste do jugo da Indonésia, entre 1999 e 2002, Vieira de Mello também se mostraria inflexível nas denúncias dos crimes indonésios.

Vieira de Mello sacrificou a vida familiar pelo trabalho. Sempre em lugares perigosos, sobrou-lhe pouco tempo de convivência com os dois filhos que teve com Annie, sua mulher francesa. Mas, homem charmoso, nunca teve dificuldade em arranjar companhia feminina. No Camboja, carregou uma namorada holandesa para negociações na selva com os guerrilheiros genocidas do Khmer Vermelho. No Timor Leste, conheceu a argentina Carolina Larriera, também funcionária da ONU, com quem pretendia se casar. Carolina trabalhava na ONU de Bagdá em 2003, quando ocorreu o atentado. Perfeito oposto do burocrata acomodado (e às vezes corrupto) que prospera em muitos escritórios da ONU, Vieira de Mello era um homem de ação. Desempenhava suas funções com destemor. No tempo que passou em Sarajevo, por exemplo, recusava-se a sair à rua com o colete à prova de balas que é padrão da ONU – seria um desrespeito com a população local, que não tinha proteção, dizia.

Oscar Cabral
Carolina Larriera, a namorada argentina: sobrevivente do atentado em Bagdá


Muito bem documentada, a biografia de Samantha Power permite um vislumbre das limitações e contradições da instituição que Vieira de Mello tão apaixonadamente defendeu. Sem autonomia de combate, as forças de paz da ONU muitas vezes são chamadas para missões paliativas, nas quais se limitam a "monitorar" massacres em curso. As determinações do Conselho de Segurança da ONU que Vieira de Mello era chamado a cumprir se revelavam freqüentemente vagas, porque os países-membros não querem se comprometer com linhas de ação claras. O diplomata brasileiro se viu confrontado com a impotência da ONU diante de tragédias humanas – mas sua biografia prova que resta algo a ser defendido na organização. A atuação de Vieira de Mello, afinal, trouxe alívio ao sofrimento das populações vitimadas. Sua especial conjunção de firmeza e habilidade de negociação se mostrou quando, como chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, Vieira de Mello foi recebido pelo presidente George W. Bush na Casa Branca – episódio relatado em saborosos detalhes em Chasing the Flame. Quando Bush falou das medidas excepcionais exigidas pela guerra ao terrorismo, Vieira de Mello concordou e lembrou que ele mesmo autorizara que as forças da ONU atirassem para matar em confrontos com milícias pró-Indonésia no Timor Leste. Com isso, surpreendeu e encantou o presidente americano e conseguiu esticar a audiência de quinze para trinta minutos – nos quais não deixou de cobrar o governo americano por sua postura ambígua em relação à tortura e pelas violações de direitos humanos na prisão de Guantánamo.

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